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Mostrando postagens com o rótulo :Alberto Caeiro /Fernando Pessoa:

Fernando Pessoa

"Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, Seja este sinal para me esquecerem de todo. A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela. E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde sobre a  minha sepultura, Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural." poemas completos de Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa Editora Nova Fronteira

Fernando Pessoa

"Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar  pseudonimamente a obra Caieiro-Reis-Campos. Isso é toda uma literatura que eu criei e vivi, que é sincera, benéfica incontestavelmente, nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera não é aquela análoga à do  Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos (o seu homem, este último, o da poesia sobre a tarde e a noite). Isso é sentido na pessoa do outro; é escrito dramaticamente, mas é sincero (no meu sentidoda palavra) como é sincero o que diz o Rei Lear, que não é Shakespeare, mas uma criação dele.Chamo insinceras às cousas feitas para fazer pasmar, e às cousas, também - repare nisto, que é importante -, que não contém uma fundamental idéia metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um vento, uma noção de gravidade e do mistério da Vida. Por tudo isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos.Em qualquer destes pus um profundo conceito de vida, diverso em todos os ...

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, Porque já não posso andar só.  Um pensamento visível faz-me andar mais depressa  E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. poemas completos de Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa Editora Nova Fronteira

Alberto Caeiro

Criança conhecida e suja brincando à minha porta, Não te pegunto se me trazes um recado de símbolos. Acho-te graça  por nunca te ter visto antes, E naturalmente se pudesse estar impa eras outra criança, Nem aqui vinhas. Brinca na poeira, brinca! Aprecio a tua presença só com os olhos. Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la, Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira ves, E nunca ter vito pela primeira vez e só ter ouvido contar. O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas. Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão, Sabes que te cabe na mão. Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior? Nenhuma, e nhuma pode vir brincar nunca à minha porta. poemas completos de Alberto Caeiro heterônimo de   Fernando Pessoa Editora Nova Fronteira

Alberto Caeiro

Se eu morrer novo, Sem poder publicar livro nenhum, Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralem, Se assim aconteceu, assim está certo. Mesmo que os meus versos nuncam sejam impressos, Eles terão lá sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Se eu morrer muito novo, oiçam isso: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva --- Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo. (E nunca a outra coisa),  Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe....

Alberto Caeiro

"Se às vezes digo que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam, Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores E cantos no correr dos rios  ... É porque assim faço mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes À sua estupidez de sentidos ... Não concordo comigo mas absolvo-me, Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, Porque há homens que não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem  nenhuma. Alberto Caeiro "Poemas Inconjuntos" heterônimo de  Fernando Pessoa

Alberto Caeiro

Se eu morrer novo, Sem poder publicar livro algum Sem ver  cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralm.  Se assim aconteceu, assim está certo. Mesmo qu meus versos nuncam sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízs podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre a à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água. De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma. Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. Não desejei senão mestar ao sol ou à chuva - Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe. ...

Alberto Caeiro

"Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhazinha cedo, pela estrada, E para de onde veio volta depois Quase à  noitinha pela mesma estrada Eu não tinha que ter esperanças --- tinha que ter só rodas ... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco ... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco."   Alberto Caeiro    heterônimo de Fernando Pessoa XVI O Guardador de Reba nhos Biblioteca do Estudante Editora Nova Fronteira