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A Falência das Palavras
Por James Webb, no X.
Outro dia, não faz tanto tempo assim, num daqueles estabelecimentos que não são restaurantes, “são espaços de experiência gastronômica”, ouvi uma jovem explicar ao marido, com a solenidade de quem descreve uma obra de arte, que o prato que acabara de chegar era uma “releitura afetiva do trivial”.
Observei: arroz, peixe envolto em molho branco, batatas rústicas, salada. Bonito, talvez. Um fio de azeite traçado em diagonal, como se o chef tivesse estudado geometria antes de cozinhar. Mas era arroz com peixe. O rapaz deu a primeira garfada e fez a expressão de quem acabara de descobrir algum segredo sobre a origem da humanidade. Mas continuava sendo arroz com peixe.
Não é que o prato fosse uma fraude. Longe disso. Mas a “experiência” renomeada me chamou mais atenção do que a comida em si.
Alguns estudiosos chamam isso de esvaziamento semântico, e ele está em toda parte: discreto, eficiente, elegante, com ótimas avaliações no Google.
A língua, claro, é viva. Ela se altera, migra, envelhece, morre, renasce. Não existe purismo capaz de resistir ao tempo, e nem deveria existir. Mas há diferença entre a transformação orgânica promovida pela fala e o sequestro deliberado operado pela sociedade instagramável.
O primeiro acontece devagar, por acúmulo de uso e necessidade. O segundo tem pressa, estratégia, branding, dashboard.
Comecemos pela palavra RITUAL. Até certo ponto, ela designava um ato sagrado, repetido com solenidade, capaz de marcar a fronteira entre o ordinário e o transcendente. Hoje aparece colada ao suco detox, à rotina de skincare, ao café bebido diante da janela. Não que café diante da janela não seja bom. É ótimo, inclusive. Mas chamar isso de ritual é pedir emprestado um peso que a coisa não tem. E, a cada empréstimo desses, a palavra volta para casa um pouco mais vazia. Uma espécie de agiotagem da língua.
ACOLHIMENTO. Palavra que um dia exigiu presença, escuta, abertura genuína ao outro. Hoje aparece estampada em menus de restaurante e anúncios de coworking, como promessa de que alguém vai sorrir enquanto serve o cappuccino.
AMIGO/AMIGA. Uma das palavras mais afetivas virou vocativo automático de estranhos e arma passivo-agressiva em comentários de rede social. “Amiga, surtando nesse look.” “Amigo, que loucura.” Muitas vezes dita entre pessoas que não se falam há anos e mal se suportariam num elevador.
CONTEÚDO. Antes pressupunha substância, recheio, alguma coisa dentro. Hoje é qualquer material produzido para ocupar atenção por alguns segundos antes do próximo scroll.
LINDO. Pobre lindo. Tão repetido em comentários, respostas automáticas e elogios sem custo que perdeu gradação. Já não significa belo nem extraordinário. Virou apenas reflexo condicionado, o amém digital de quem passou por ali sem realmente olhar.
COLABORADOR talvez seja o caso mais eloquente dessa mudança performática. A palavra chegou suave, quase gentil, prometendo horizontalidade onde havia hierarquia. O empregado virou colaborador, como se o salário fosse detalhe, como se a subordinação tivesse evaporado junto com o crachá antigo. Mas o colaborador ainda bate ponto. Ainda pode ser demitido. Ainda depende do chefe para pagar o aluguel. O que mudou não foi a relação, foi o nome dela. E mudar o nome sem mudar a coisa é uma forma sofisticada de mentira. Sofisticada, claro. Com onboarding, cultura organizacional e slide motivacional.
PARCEIRO. Antes sugeria cumplicidade, risco compartilhado, destino comum. Hoje é como aplicativos chamam entregadores sem vínculo, sem férias, sem garantia nenhuma. Parceiro. Como se mochila nas costas e aplicativo no celular configurassem uma sociedade entre iguais. Uma parceria em que só um lado escolheu os termos.
ENTREGA migrou do mundo físico para o universo das emoções e das performances com velocidade espantosa. Atores já não atuam: “entregam”. Profissionais não cumprem metas: “entregam resultados”. A palavra que descrevia o gesto concreto de passar algo às mãos de alguém agora mede dedicação, talento, vulnerabilidade. Como se tudo precisasse virar mercadoria rastreável, mensurável, auditável.
SOLUÇÃO também perdeu o chão. Houve um tempo em que soluções resolviam problemas reais, identificáveis, mensuráveis. Hoje qualquer produto é uma solução. Shampoo virou solução capilar. Aplicativo de meditação virou solução de bem-estar. Consultoria de três reuniões e um PDF virou solução estratégica. O problema, muitas vezes, continua intacto. Sem solução.
PROPÓSITO talvez tenha sofrido a transformação mais ambiciosa. Palavra que a filosofia cultivou durante séculos, que religiões disputaram com solenidade, que muita gente buscou em silêncio a vida inteira, virou item obrigatório de apresentação corporativa. Toda startup tem um propósito. Toda marca tem um porquê. O propósito está no site, no pitch, no discurso do CEO diante dos colaboradores. Raramente está nas práticas. Mas a palavra está lá, elegante, cumprindo sua principal função contemporânea: dispensar explicações maiores.
E talvez exista algo ainda mais curioso nisso tudo: quase nenhuma dessas palavras foi destruída pela mentira explícita. Elas foram desgastadas pelo excesso. Pelo uso constante, estratégico, performático. Como moedas antigas que continuam circulando depois de perder o relevo.
O problema não é a mudança da língua. O problema é o empobrecimento dela. Quando todas as palavras importantes passam a servir para qualquer coisa, elas deixam de nomear o que realmente importa. Como um trabalhador descreve sua precariedade, se até a exploração ganhou um nome simpático? Como alguém diz que está sozinho, se a solidão virou “tempo de qualidade consigo mesmo”? Como pedir socorro, se “processo” e “jornada” já colonizaram até o sofrimento?
As línguas sobrevivem às modas. Já sobreviveram a impérios, ditaduras, reformas ortográficas. Vão sobreviver ao LinkedIn também. Mas, às vezes, no intervalo entre uma moda e outra, perdemos justamente as ferramentas de que mais precisávamos: as palavras capazes de nomear o que é raro, profundo, injusto, verdadeiro.
Talvez valha, de vez em quando, chamar o arroz de arroz e o peixe de peixe. Não por falta de imaginação, mas porque quando tudo vira experiência, nada mais surpreende.
E a surpresa, essa sim, ainda não encontraram uma palavra melhor para substituir. Ainda bem.
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