Assim fomos recebidos hoje pela manhã aqui na minha cidade. Uma chuvinha gostosinha, com aquele frio cortante e um vento tímido mas potente.
O Climatempo informa que no momento 20 graus visita minha minha cidade.
Ah, como amo o frio. Mas ainda me pesa me deliciar com o frio quando sei que tantos estão sob marquise e no chão de uma calçada fria, sem perspectiva alguma sobre a vida.
Sei que não é responsabilidade minha a situação em que milhares e milhões se encontram, contudo saber disso não os faz indiferente ao meu coração.
Assim, entre o prazer de receber o frio que amo e o desconforto da dor alheia que não ignoro, encontra-se minha alma nesse momento.
Enquanto isso, digladiando entre sentimentos opostos peguei meu saquinho de linhas que estava repleto de linhas embaralhadas e me coloquei a organiza-las.
Desenrolar linhas é uma tarefa inebriante para minha alma. E isso me faz lembrar do meu cunhado Pedroquinha, que se foi há tantos anos.
Era comum chegar em sua casa encontra-lo na varanda debruçado sobre a mesa e com um emaranhada de linha de pipa nessa tarefa de desatar nós. Na época eu só olhava mas não entendi o que se passava na alma dele enquanto fazia esse trabalho.
Hoje entendo seu apreço e vislumbro o que sua alma sentia, embora não saiba traduzir em palavras. E nem teria como pois seria muita presunção da minha parte decifrar seus sentimentos. Já que cada um de nós é um caldeirão de suscetibilidade indecifráveis
Mas o gozo, o prazer, eu posso entender já que sinto o mesmo quando me dou a esse tão insignificante trabalho manual mas cheio de significados.
Consegui desenrolar todo o emaranhado. E ficou tudo organizado. E agora começo um novo crochê básico nas bordas de uma toalha velha que cortei para fazer pano de piso de banheiro. Aquele que a gente coloca os pé quando saindo box absorvendo as gotas d'água que escorrem pelo corpo.
Daqui a pouco interrompo meu simplório artesanato para fazer o almoço mas sei que vou com a alma relaxada e já com a alma afogada, sem fadigas.
Da minha janela volto admirar a chuva que cai e me deparo com o ferro velho do vizinho novo. Esse terreno em todo os meus 66 de anos dessa minha vida aconchegante foi um lugar que abrigava apenas mato.
E quando finalmente foi ocupado me traz a surpresa de um vizinho proprietário de um ferro velho. Nada tão encantador. No início meu olhar lá sofreu com a feiúra das coisas velhas. E fiquei ranzinza com o novo vizinho. Só pensava no quente ruim traria. Velharia, lixo e ratos.
Até que um dia aquele versículo de Mateus veio ao meu coração. O que diz que Deus permite que o Sol nasça para os bons e maus e a chuva caia para os justos e injustos. E entendi que todos, absolutamente todos, tem direito ao Sol. E meu olhar mudou.
Hoje oro e desejo que meu vizinho, um rapaz bem jovem, prospere em seu negócio já antigo mas que estava em terreno alugado e hoje no seu próprio. E já começo a encontrar beleza em algumas velharia.
Como esse varal em frente minha janela 🥰








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