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~Três papos ~🌹

 Depois que enviei a postagem anterior, me lembrei do Artur da Távola e sua bela crônica Mulher Madura.

Pesquisando não encontrei a referida crônica, mas essa de Cacá Diegues e deixo em homenagem a esses dois pensadores de mentes brilhantes,  que hoje estão no reino dos encantados.

🌹🌹🌹🌹


Três papos com Paulo Alberto e um com Artur da Távola

Cacá Diegues - Jornal O Globo - 21 de maio de 2023

Artur da Távola pensava e escrevia sobre alguma coisa que não estava acontecendo como devia acontecer


Éramos todos adolescentes. Estávamos nos salões do Caiçaras, aquele clube que fica no final de Ipanema. Ou no início do Leblon. Um espaço em forma de ilha, cujo acesso se dá por uma ponte construída entre a avenida por onde passam os automóveis e a ilha propriamente dita. No clube, íamos festejar o aniversário de uma menina, o 15º de sua vida.

Mal terminou seu pequeno e eufórico discurso, o pai da moça começou a sofrer ataques dos meninos presentes que, entre assobios e aplausos, lhe enviavam, ao corpo e sobretudo ao rosto impecável, bolinhos e sanduíches.

Um rapaz um pouco mais velho se destacava no meio dos gestos, risadas e protestos, a comandar a ação de todos. Um jovem percebeu minha curiosidade e me disse com certo orgulho: “Esse é o Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Paulinho. Foi ele quem organizou essa operação, hoje de manhã na praia.”

Àquela altura eu estudava na PUC, para a qual prestara um vestibular bem-sucedido para o curso de Direito, em homenagem a meu pai. Mas não me ocorria ser advogado. Eu já era tarado por cinema, só não sabia se poderia viver dos filmes.

Enquanto eu assistia aos filmes e conversava nos cineclubes das faculdades do Rio com meus novos amigos sobre cinema, fazia também política estudantil na PUC e na União Metropolitana dos Estudantes (UME ).

Numa manifestação no campus da PUC, vi um rapaz calar uma jovem radical de direita oferecendo-lhe uma flor colhida em nossos jardins, como resposta gentil às barbaridades que ela dizia sobre o discurso dele.

Reconheci o rapaz que conheci no Caiçaras, estava novamente diante de Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Paulinho.

Tornei-me um admirador dele. O que não podia imaginar é que meu herói também me observava, com seus critérios sobre minha participação política e cultural. E qual não foi meu espanto quando ele me convidou para acompanhá-lo no trabalho de renascimento do jornal universitário da UME, “O Metropolitano”.

No “Metrô”, Paulo Alberto seguia me encantando, não só fazendo um jornal pioneiro por sua qualidade, mas também pela originalidade de seu modo de se fazer. Ele nos surpreendia com as decisões que tomava, mantendo “O Metropolitano” em sua linha de independência e análises agudas da realidade em que vivíamos.

No final desse período, por insistência da equipe que comandara, Paulo Alberto resolveu experimentar a “política real”, sua participação na política partidária e eleitoral. Ele se aproximou então de Fernando Ferrari e decidiu se candidatar com a cobertura do PTN, o partido comandado pelo deputado. Além de sua origem trabalhista, o PTN tinha a vantagem de não estar queimado pelo comportamento ambíguo de seus políticos, como era o caso do PTB, o partido trabalhista tradicional.

A Revolução Francesa, no século XVIII, havia marcado as posições para o resto da história das democracias, com seu slogan de liberdade, igualdade e fraternidade. Os capitalistas ocidentais haviam eleito a liberdade como seu guia político; o socialismo emergente escolhia a igualdade como seu rumo. Para nós, o Brasil seria a pátria da fraternidade, mesmo que não soubéssemos ainda direito o que seria isso.

Começamos a conversar sobre o assunto, antes do golpe de Estado de 1964. Tínhamos a sincera sensação de que vivíamos um tempo de mudanças, mas cuidávamos para que essas mudanças não se tornassem parecidas com o lugar-comum da velha política brasileira.

A partir de março de 1964, Paulo Alberto foi para uma representação latino-americana no Rio, e viajou em seguida para a Bolívia, onde viveria seus primeiros anos de exílio. Dei-lhe de presente minha coleção completa de exemplares do “Metropolitano”, ele não tivera tempo de recolher os seus.

Fiquei muito tempo sem saber dele, tendo apenas vagas notícias que me eram enviadas por nossos amigos. Foi quando comecei a ouvir falar de Artur da Távola, o nome que adotaria para seguir escrevendo seus comentários políticos e sociais, como fazia no “Metropolitano”.

Escrevi-lhe longo texto para dizer que não era esse um bom pseudônimo para escrever sobre o Brasil. A Távola Redonda não tinha nada a ver com o que o país estava vivendo. Ele me respondeu que eu não tinha entendido nada de suas intenções. Calei-me e ele em breve já era um de nossos mais importantes cronistas, falando de rádio, TV e textos, falando aos poucos do que importava falar. Eu tinha que reconhecer que ele estava certo. E o fiz assim que pude.

Artur da Távola pensava e escrevia sobre alguma coisa que não estava acontecendo como devia acontecer. E ele então, sempre que podia, acabava me dizendo que “você talvez tenha alguma razão, mas foi assim que senti a força do que dizia, foi assim que vivi a questão, misturado com eles”.

Artur da Távola herdara de Paulo Alberto a mítica de um Brasil do futuro. Paulinho tinha mais uma vez razão.


Cacá Diegues - Oficial

https://www.carlosdiegues.com.br/artigos-tres-papos-com-paulo-alberto-e-um-com-arthur-da-tavola.html






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