"Cura as feridas que a dúvida me causa, minha alma. Também isto deve ser vencido para que eu conheça teu sentido supremo. Como tudo está longe, e quão afastado estou! Meu espírito é um espinho torturante, ele despedaça minha visão interior, gostaria de desintegrar e rasgar tudo. Ainda sou vítima do meu pensar. Quando posso oferecer descanso ao meu pensar, quando meus pensamentos, aqueles cães danados vão rastejar a meus pés? Como posso espera alguma vez escutar em tom mais alto tua voz, ver mais claramente tuas manifestações, se todos os meus pensamentos uivam em volta de mim?
Estou perplexo, mas quero estar perplexo, pois jurei, minha alma, confiar em ti, mesmo que me conduzas através de ilusões. Como tornar-me participante de teu sol, se não beber a amarga porção sonífera e não bebê-la até o fim? Ajuda-me a não me afogar no próprio saber. A totalidade do meu saber ameaça cair sobre mim. Meu saber tem uma multidão de falantes com voz de leão, e o ar treme quando eles falam, e eu sou sua vítima indefesa. Afasta de mim o esclarecimento inteligente, a ciência*, aquele carcereiro mal que amarra as almas e as trancas em celas sem luz. Mas protege-me sobretudo da serpente do julgamento, que é uma serpente terapêutica só da superfície, mas em tua profundeza é veneno infernal e morte cruel. Eu gostaria de descer para tua profundeza como puro, com veste branca, e não chegar apressado como um ladrão, roubar, fugir sem fôlego. Deixa-me perseverar no assombro divino*, para estar pronto a contemplar suas maravilhas. Deixe-me deitar minha cabeça sobre uma pedra diante da tua porta, a fim de estar pronto para receber tua luz."
O livro vermelho (Liber Novus). C. G. Jung –
Editora Vozes, 2010. 404 págs.
Ontem, fizemos a leitura das páginas 237 e 238. Parte delas. E esse momento foi um dos mais impactantes, tanto que foi relido pausadamente e depois fiz uma colinha para deixar aqui.
Aqui Jung fala para sua alma.
Além de profundo, intenso, sensível, é de um beleza poética exuberante.
E eu que amo e respeito minha alma e que já escrevi aqui que ela é tudo para mim, me senti abraçada, acolhida, compreendida. Menos só nas minhas viagens interiores,
E quanto aos asteriscos é a forma que encontrei de sinalizar que existem notas no rodapé do livro, que explicam sobre a expressão utilizada.
Deixo uma lembrança de minha colinha. E sonhando com o dia de ter o meu exemplar vermelho.

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