Povos que vivem em culturas de raízes mais firmes do que a nossa encontram menos dificuldade em compreender que é necessário renunciar à atitude utilitarista de planejamentos conscientes para poder dar lugar a um crescimento interior da nossa personalidade. Encontrei uma vez uma senhora de certa idade que não alcançara muito na vida em termos de realizações exteriores. Mas fizera um bom casamento, com um marido de temperamente difícil e, de certo modo, conseguira uma personalidade bastante amadurecida. Quando queixou-se a mim de que nada "fizera" na vida , contei-lhe a história narrada por Chuang-Tzu, um sábio chinês. Compreendeu-a logo e sentiu-se tranquila. Eis a hitória:
Um carpinteiro ambulante, chamado Stone, viu no decorrer das suas viagens, em um campo próximo de um altar rústico, um velho e gigantesco carvalho. Disse a a seu aprendiz, que admirava o carvalho: "Esta árvore não tem qualquer utilidade. Se quiséssemos fazer um barco com sua madeira, ele logo apodreceria; se quiséssemos usá-la para ferramentas, elas logam haviam de quebrar. Para nada serve esta árvore, por isso chegou a ficar assim tão velha."
Mas naquela mesma noite, numa hospedaria, o velho carvalho apareceu em sonhos ao carpinteiro e disse-lhe: "Por que você me comparara às árvores cultivadas, como o pilriteiro, a pereira, a laranjeira, a macieira e todas as árvores frutíferas? Antes de amadurecem os seus frutos as pessoas já as atacam e violentam, quebrando-lhes os galhos e arrancando-lhes os ramos. As dádivas que trazem só lhes acarretam o mal, impedindo-as de viver integralmente, até o fim a sua existência natural. É o que acontece em todos os lugares; por isso esforço-me, há tanto tempo, para permanecer completamente inúltil. Crês que se eu tivesse servido para alguma coisa teria chegado a essa altura? Além disso, tu e eu somos ambos criaturas e como pode uma criatura erigir-se em juiz de outra? Inútil mortal, que sabes a respeito da inutilidade das árvores?"
O carpinteiro acordou e pôs-se a meditar sobre o sonho. Mais tarde, quando o aprendiz perguntou-lhe: por que só havia aquela árvore a proteger o altar rústico, respondeu-lhe:
"Cala-te! Não falemos mais nisso! A árvore nasceu aqui propositalmente, porque em qualquer outro lugar acabaria por ser maltratada. Se não fosse a árvore do altar rústico talvez já a tivessem derrubado.
O carpinteiro evidentemente compreendeu bem o seu sonho. Verificou, apenas que realizar seu destino é o maior empreendimento do homem e que o nosso utilitarismo deve ceder às exigências da nossa psique inconsciente. Se traduzirmos esta metágfora em linguagem psicológica, a árvore simboliza o processo de individuação, e dá uma boa lição ao nosso ego, de curta visão.
Sob essa árvore que cumpriu seu destino havia - na hirtória de Chuang Tzu - um altar rústico, isto é, uma pedra bruta, sobre a qual eram oferecidos sacri fícios ao deus local, "proprietário" daquele pedaço de terra. O simbolismo do altar significa que para realizar um processo de individuação, é preciso nos submetermos, conscientemente, ao poder do inconsciente, em lugar de pensarmos "que devemos fazer" ou "o que se considera melhor fazer" ou " o que se faz habvitualmente" etc. É preciso apenas ouvir para poder compreender o que a totalidade interior - o self - quer que façamos, aqui e agora em um determinada situação.
Nossa atitude deve ser como a do pinheiro de que há pouco falamos: não se aborrece quando o seu crescimento é obstruído por alguma pedra, nem faz planos para vencer obstáculos. Tenta simplesmente sentir se deve crescer mais para a esquerda ou mais para a direita, em direção a encosta ou mais afastada dela. Tal como a árvore, devemos nos entregar a esse impulso quase imperceptível e, no entanto, poderosamente dominador - um impulso que vem do nosso anseio por uma auto-realização criadora e única. É um processo no qual é necessário, repetidamente, buscar e encontrar algo ainda não conhecido por ninguém. Os sinais orientadores ou impulsos vêm não do ego, mas da totalidade da psique: o self.
Mary Louise Von Franz
em
"O Homem e Seus Símbolos"
Concepção e organização
de Carl Gustav Jung
Editora Nova Fronteira
4ª Edição
Editora Nova Fronteira
4ª Edição
Comentários